Antônio Abujamra. Foto: Reprodução

Além do preto e do branco, o vermelho já berra no início de tudo. Há cor na voz, há revolta, revolução, ironia e risos. Provocações… Não é preciso os ecos das gargalhadas ou das palmas de uma plateia participante. O cenário não remete ao urbano, mas ao humano.

O programa Provocações, da TV Cultura, tem como apresentador, Antônio Abujamra, diretor de teatro e ator brasileiro. Desde a abertura do talk show, que existe há 13 anos, a figura é o maior símbolo do drama, dilemas e tabus abordados.

“Ai de mim, ai de mim provocações. 13 anos caminhando no incerto e idolatrando a dúvida.”

Já na primeira frase do apresentador do programa, o drama teatral aparece em seu tom lamentador. É uma metalinguística discreta que cutuca o público que assiste acerca do próprio modo que ele opta por viver “ Este programa pode não ser uma janela aberta para o mundo, mas com certeza é um poliscópio no oceano do social”. Enquanto se vive, se pensa em como se vive.

Abujamra diz que as frases iniciais do programa deveriam ser encenadas por uma Medeia. Sim, ela mesmo, aquela personagem da mitologia grega, onde repousa sentimentos antagônicos, cruéis e profundos. Tão terrível e fascinante. Mas ele, como um mero mortal, é capaz de fazer esse papel. Sim, todos os homens tem deuses enterrados no mais profundo de sua psique. São deuses diferentes, ou uma fusão deles. Nada como provocá-los. Por isso tantas perguntas no programa, desconexas uma das outras. É preciso surpreender, o natural é espontâneo.

Os gestos, idas e vindas, perfis diferentes de como é focado o rosto do apresentador, que é retratado em forma de desenho revelam: o ser humano é uma personagem inconstante na narrativa criada pela vida.

Começa a entrevista. As vítimas são professores, prostitutas, poetas, atores, autores, cantores, jornalistas, e todo o resto. Nas quase 700 edições, as vozes diversas formam um mosaico construído a partir da libertade do questionar, do pensar e do responder. As mãos de Antônio, tão vivas em seus gestos são o juiz da consciência de cada um. Mas não é aquele juiz que critica, julga ou aponta o dedo, é aquele que tenta suscitar a partir das perguntas coisas que o entrevistado e a plateia que assistem talvez nunca tenham parido de dentro de si anteriormente, embora existam.

O programa é um espelho do interior, um convite para o autoconhecimento. Se em muitos talk shows o convidado a ser entrevistado revela aspectos cômicos e muito embasados em si próprio para a plateia, o Provocações seduz a todos a pensar juntamente com o convidado. Apesar das gravações, não é preciso as palmas do público para que as ações sejam simultâneas. Com o estímulo da questão, todos pensam na mesma hora.

O cenário, apesar de limitado a uma mesa grande, que não é ocupada por inteira,  e uma parede laranja obscura, revela que quando os devaneios e as ideias são bons, tudo se amplifica, e que não é necessário um grande cenário, ou a mudança de canal para se sentir liberto. Com olhos nos olhos dos entrevistados, o semblante ora rígido e ora plácido do apresentador parece penetrar os pensamentos de suas “vítimas”. É irônico como um espaço tão pequeno, escuro e limitado pode se elucidar tantas coisas. São os recortes da realidade, os temas são como fotos a serem revelados numa oficina. Foram tiradas lá fora, na sociedade, mas ali, naquele espaço e momento, são reproduzidas mais claramente.

Olhar por um tempo relativamente grande (aproximadamente 30 minutos) o semblante de poucas pessoas na TV pode sim ser algo fascinante. Quando existe conteúdo e reflexão, o limitado se transforma em libertador.

A profissão dos indivíduos, assim como sua vida social e intimista são abordados de uma forma integrada. É o jornalista que realizou determinado trabalho por causa de seus valores, ou a estudante que reivindicou por melhores condições em seu ambiente de escolar por causa de sua garra direitos.

Assim como cada personagem dos livros, contos, dramas, teatros e demais meios criativos tem algo que lhe represente, cada convidado tem um poema que remete a aquilo que foi abordado com enfoque na entrevista.

Na seção Vozes da Rua, os anônimos expressam sua opinião acerca de um aspecto central que é tratado em cada entrevista. É o grito da realidade, afirmando que para além daquele cenário, há pessoas com vozes lá fora, que não podem ser sufocadas.

Todo final do programa tem sempre o mesmo ritual: “O que é a vida?” A pergunta é feita duas vezes consecutivas. E novamente em um ato metalinguístico, os entrevistados vivos e a respirar, falam sobre o que é viver. Aí está: quem disse que viver é respirar e estar em um corpo ativo e animado? Tão intrigante quanto diverso o conteúdo das respostas. Certas ou incertas? Relativas.

Abujamra termina o diálogo com a frase: “Vem cá me dar um abraço, que é a única coisa falsa nesse programa”. Confuso. Será mesmo a única coisa falsa?  É o Provocações, novamente fazendo jus ao nome!

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