Outro dia proseava com um velho conhecido. Nem tão antiga é a amizade que já completou uns doze anos? Sei lá, desnecessário precisar tempo exato. Deixo para os matemáticos, os resultados exatos. Assunto nosso tem de todo quanto é tipo. Outro dia, o conhecido reclamou horrores do governo, que ele defendeu com unhas, dentes, com direito a adesivos e propagandas do partido no carro, na porta de entrada da casa, nos vidros das janelas que dão vista para rua; camisa, boné, broche, bandeira e todas as propagandas em todos os suportes imagináveis. O amor dele pela mulher era (ainda é!) de deixar qualquer sujeito de queixo caído. Um amor contundente, enérgico, fidelíssimo, coisa rara, raríssima de se ver nos dias de hoje. O camarada sabia tudo sobre ela. Tamanho do manequim, número do sapato, marca do carro que ela mais apreciava, frases célebres e efusivas saudações às coisas da natureza. “Gesto nobre da mulher, né, naquele último discurso! Louvar as coisas da natureza é pra gente sensível, sim”! “Não sei por que fizeram tanta broma com a fala dela”! “A grande maioria do povo, por causa da baixa cultura e pouco estudo, nem sabe compreender a complexidade, né?” “Donde já se viu maior autoridade de um país saudar, com humildade e nobreza, as coisas da natureza”? “Nem Obama! Nem Obama!” “Duvido que encontrem na nossa história, discurso mais engenhoso”! Defendia com peito estufado e dedo erguido. Ai de mim que desisti de contrapor as falas apaixonadas do conhecido. Discussão sem propósito para quem tem paciência e tempo para gastar. O meu está precioso e contadinho. Quando o assunto é amor e paixão em doses estratosféricas, levando o indivíduo à extrema cegueira, melhor ficar de bico calado. Eu sabia do mix que fizeram com a fala polêmica da mulher. Correu redes sociais, Whatsapp, e quem não viu ou escutou a engenhosa intervenção musical ao pronunciamento, diria que vale a pena, não para ver de novo o patético horripilante ou a comédia execrável. Não! Longe de mim convidar afetos ou até desafetos, para sofrerem tamanha poluição auditiva! Dói o ouvido, podendo ocasionar inflamação dos tímpanos, ou em áreas mais sensíveis da audição. E em caso recidivo de ‘escutamento’, o ser poderá ter outro choque ou entrar em estado de estupefação. Se vamos chamar a atenção, que chamemos por coisas maravilhosas. Merecemos e estamos carentes, cada vez mais carentes, e mais pobres de exemplos, que nos fazem ter orgulho e brio da representação do país.

Retornando à prosa com meu não tão velho conhecido, escutei pacientemente e quase muda, todas as reclamações e choraminganças possíveis e imprevisíveis. “É muita decepção, né”? “Mas com tudo, com tudo mesmo que os jornais estão divulgando, como a alta da cesta básica, da luz, da falta de desemprego, da roubalheira, etc, no fundo, bem lá no fundo, acho que tudo isto não é, não é mesmo o que ela está pensando e querendo, não é verdade”? Não resisti à pergunta e à pausa. “É, amigo. Quando você vê uma mulher casada nua com outro homem na cama (também nu), pode não ser aquilo ou isto que você está pensando, não é? A primeira vez a gente toma um baita susto. Depois das traulitradas no amor ou na política, a gente acaba se acostumando a ser ‘traulitado’ com regularidade, e sem reclamar. Se começar a haver mais encontros extraconjugais em nossa cama, a gente até aprende a ficar profissional,  chegando depois da hora da suruba, não é? A gente se acostuma, meu amigo! E viva o amor, o amor cego que não tem olhos, boca, sentido, raciocínio e noção…

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