O deserto de sal no Chile foi a inspiração para uma das páginas do livro de Natalia Goulart. Foto: Reprodução

O deserto de sal no Chile foi a inspiração para uma das páginas do livro de Natalia Goulart. Foto: Reprodução

Com um olhar que parece ir além do que as palavras possam dizer, Natália Goulart conta suas estórias sobre o viver ontem, hoje e amanhã. Hoje, se diz descrente de sua escolha no passado, o jornalismo. Avessa ao tipo de escrita explicativa e “sempre desorganizada”, é incapaz de descrever a representação de Clarice Lispector para si. Desconexa, misteriosa, escritora de histórias e crônicas, sabe qual é sua única pretensão no momento: a escrita.

Natália encontrou-se após um intercâmbio em La Plata, na Argentina. Por lá, percebeu que frequentava mais Belas Artes que Comunicação. Entre os encontros da alma, passou por Bolívia, Peru e Manaus, rodou a vizinhança latina e brasileira. Nesse tempo, para ela foi um susto perceber que determinadas pessoas nesse mundo não sabem mensurar quão longe pode estar o Japão. “É aqui do lado né?”, pergunta um senhor para a jovem que acabara de descobrir uma vida além das lembranças de sua cidade natal, Serra do Salitre, em Minas Gerais.

Porém, o maior susto da tal escritora foi quando pegou carona de Santiago até Salta em um caminhão com um motorista sonolento, o que tornou a estrada cada vez mais longa e sinuosa.

Para quem um dia fez a releitura do Renascimento completamente nua, dentro de uma igreja histórica mineira, apenas para fotografar, talvez essas situações fossem apenas um adendo ao espírito de aventura.

“Eu posso ser quem eu quiser.”

As travas que a acompanhavam foram sendo desconstruídas em momentos quando podia “dançar de uma forma muito estranha” e não ser reconhecida, ou quando afirmava aos taxistas que seu suposto namorado estava bem e que sempre mantinham contato.

De volta, percebeu não só as diferenças com o outrem, mas também recuperou algumas de suas barreiras sociais. Agora Natália era uma pessoa conhecida novamente, com a mesma casa, o mesmo quarto e os mesmos conhecidos. Ainda assim, por aqui nada parou e as pessoas continuaram suas vidas normalmente. Foi assim que também fez, se formou na Universidade Federal de Ouro Preto e seguiu para a capital paulista, onde estudou escrita criativa.

Nesse período, as palavras lineares de seu antigo curso deram lugar à um novo romance, não um affair, mas um livro sobre. Como uma montanha russa de acontecimentos, utiliza de sua infância e adolescência para rascunhar as folhas do conto. Sobre o que ela diz? “A escrita diz sobre mim, e não ao contrário”. As vinte páginas feitas até a escrita dessa crônica decorreram de seis meses entre voltas ao passado, à época em que seu pai ausente bebia e sua mãe cortava um pé de amora. Mesmo que sua a relação familiar gere certa angústia, a narradora do romance é constituída por pedaços de Natalia e, é na tristeza que sua vida cresce.

“Eu desconfio de pessoas que são muito felizes, que são muito completas com a vida, essa euforia.”

Em busca da reinvenção de sua história por meio da literatura, Natália Goulart, viajante da América Latina, 27 anos e autora de Depois da Volta – Crônicas da América Latina, agora cursa mestrado em Educação. Seu novo projeto traz o foco à escrita feminina, ao mesmo tempo em que escreve para se refugiar da angústia, sair do limbo. Um refúgio onde não precisará de ética, onde não existem regras e, principalmente, onde estará sempre em seu lugar.

 

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