Arnold Newman - Marcel Duchamp (1942). Foto: Cea +/Flickr/CC

Arnold Newman – Marcel Duchamp (1942). Foto: Cea +/Flickr/CC

Antes de refletir sobre a ação de Resende em “Intervenção Urbana” e comparar suas possíveis relações e diferenças com o readymade de Marcel Duchamp, gostaria de acrescentar que na instalação “Uma e três cadeiras”, 1965, o artista Kosut montou a explicação artística do conceito de signo de Saussure. A cadeira é o referente, a foto da cadeira é uma representação e a definição é o conjunto de traços que compõe a definição cadeira.

Desde a expansão da Revolução Industrial no século XIX, a repetição adquiriu um sentido particular para a cultura e a arte moderna, passando a ser associada à produção de objetos iguais, gestos repetidos de acordo com o ritmo das máquinas, padronização do comportamento e à massificação dos indivíduos. A repetição, entretanto nem sempre foi associada aos processos industriais, pois é vivida em muitas situações humanas como atividade do dia-a-dia. A repetição assumiu um valor negativo, como uma característica inevitável da vida nas grandes cidades industriais, onde a existência seria monótona e opressiva.  Ligada à dinâmica da vida e às suas forças de transformação, a arte sempre lidou com diferentes dimensões e significados de repetição – muitos artistas trataram de processá-la como forma estética. A sensação de se viver em um mundo de objetos, imagens e comportamentos repetidos ganhou novas proporções. Muitos trabalhos realizados a partir daí pensaram essa nova escala na contemporaneidade: artistas ligados ao expressionismo abstrato, à pop art, ao minimalismo e a arte conceitual.

No contexto norte-americano, a obra de Pollock se estruturou na repetição de um novo espaço pictórico com marcas gestuais parecidas, distribuídas pela superfície da tela, não permitindo a distinção de partes ou figuras com relação ao fundo, um espaço sem planos diferenciados e sem hierarquia visual, diferente da tradição compositiva que se fazia na arte moderna.

Sobre os readymades na tradução de Renato Suttana, escrito em 1961, Marcel Duchamp disse: “em 1913 tive a feliz idéia de fixar uma roda de bicicleta a uma banqueta de cozinha e vê-la girar. Alguns meses depois, comprei uma reprodução barata de uma paisagem de entardecer de inverno, que denominei de “Farmácia”, após lhe acrescentar duas pequenas manchas, uma vermelha e uma amarela, no horizonte. Em Nova York, em 1915, comprei numa loja de ferragens uma pá para neve, sobre a qual escrevi “In advance of the broken arm” (“Um avanço para o braço quebrado”). Foi nessa época que a palavra readymade me ocorreu para designar essa forma de manifestação. Um ponto que quero deixar bem claro é que a escolha desses readymades jamais foi ditada por razões de deleite estético. A escolha baseava-se numa reação de indiferença visual, bem como, ao mesmo tempo, de total ausência de bom ou mau gosto – de fato, uma completa anestesia. Uma característica importante era a frase curta que eu ocasionalmente anexava ao readymade. A frase, em vez de descrever o objeto à maneira de um título, objetivava levar a mente do espectador para outras regiões mais verbais. Algumas vezes, eu adicionaria um detalhe gráfico de apresentação, o qual, a fim de satisfazer minha ânsia por aliterações, seria chamado de readymade aided (“readymade ajudado, melhorado”). Noutras ocasiões, tentando expor a antinomia básica entre arte e readymades, imaginei um readymade recíproco: usar um Rembrandt como uma tábua de passar! Muito cedo me dei conta do perigo de repetir indiscriminadamente essa forma de expressão e decidi limitar a produção anual de readymade” a um número pequeno. Reparei, nessa época, que, para o espectador e mais ainda para o artista, a arte é uma droga que conduz ao hábito, e quis então proteger meus readymades contra tal contaminação. Outro aspecto do readymade é a sua ausência de exclusividade. A réplica do readymade produzindo a mesma mensagem, qualquer um dos readymades que existem hoje em dia não é um original no sentido convencional do termo. Uma observação final sobre esse discurso egolátrico: desde que os tubos de tinta usados por um artista são produtos manufaturados e pré-fabricados (“readymade”), devemos concluir que todas as pinturas do mundo são “readymades aided” e também obras de colagem.”

"Fountain", de Marcel Duchamp. Foto: Wikipédia/Reprodução

“Fountain”, de Marcel Duchamp. Foto: Wikipédia/Reprodução

Através do trabalho de Duchamp, o belo deixou de ser condição essencial para haver objeto artístico, levando artista e espectador a afirmarem em uníssono "ISTO É ARTE", em detrimento naturalmente de "ISTO É BELO". A ideia parecia ser absurda, descabida e desprovida de qualquer sentido. Afinal, o belo em arte nunca tinha sido posto em causa até então. De repente, fomos obrigados a rever os cânones estabelecidos pela instituição arte e, consequentemente, a aceitar a ideia enquanto objeto artístico. A expressão readymade foi inventada por Duchamp para designar a sua apropriação artística de coisas prontas, objetos industrializados e de uso cotidiano comprados em lojas e que ele apenas inseria em contextos de arte em museus e galerias. A GRANDE LIÇÃO DO READYMADE FOI TER DEMONSTRADO QUE MUDAR UMA COISA DE SEU LUGAR USUAL PARA UM NOVO É UM MODO DE TRANSFORMAR O PRÓPRIO SENTIDO DESSA COISA E DESSES LUGARES.

O surgimento da Arte Conceitual começa no trabalho de Marcel Duchamp e continua através da primeira metade do século XX. A arte conceitual nada mais é do que uma das inúmeras formas de expressão artísticas possíveis para o desenvolvimento de um trabalho pelo artista plástico. Na década de 60 através das ideias veiculadas pelo grupo Fluxus a Arte Conceitual torna-se um fenômeno mundial. No Brasil artistas como Artur Barrio, Baravelli, Carlos Fajardo, Cildo Meirelles, José Resende, Mira Schendel, Tunga e Waltércio Caldas começam a desenvolver um trabalho nessa forma de expressão.

Segundo Atkins, o termo Arte Conceitual se popularizou em 1967 depois que a revista americana ArtForum publicou o texto do artista minimalista Sol LeWitt intitulado "Parágrafos sobre a Arte Conceitual". Nesse artigo o artista organiza as reflexões já existentes na área sobre uma arte que se desenvolve somente no campo das ideias, abandonando um pouco a materialidade da obra de arte. Nessa forma de expressão artística as ideias, reflexões e pensamentos do artista seriam mais importantes do que o objeto de arte em si. Como exemplo, podemos dizer que na Arte Conceitual uma tela completamente coberta de tinta vermelha pode não ser mais entendida como uma pintura de cor única, mas sim como um suporte das reflexões do artista: para ele talvez pintar a tela vermelha seja uma forma de refletir sobre a angústia e a violência no mundo. Através desse exemplo podemos entender que a obra de arte conceitual exibida em uma exposição nada mais é do que um documento, um relato das reflexões do artista. Esse documento não usa a linguagem escrita, usa apenas a linguagem visual própria do artista plástico. Ao observador cabe tentar entender ou não essas reflexões.

Se o público é chamado a ter o trabalho de pensar sobre a obra de arte para aceitá-la e entendê-la, o trabalho do artista também não é menos difícil. Pensar e refletir sobre a realidade de maneira sofisticada exige do artista uma referência que muitas vezes ele não tem. Da mesma maneira como um pintor figurativo necessita estudar profundamente a sua técnica e forma de expressão para que possa fazer, por exemplo, um retrato de qualidade, o artista conceitual necessita ter um profundo conhecimento de filosofia, história, cultura e informação sobre o mundo atual e artistas contemporâneos para que possa criar "reflexões" visuais consistentes. Esse esforço é fundamental para o artista interessado na arte conceitual: não podemos esquecer que é muito comum encontrarmos artistas que se dizem conceituais, mas que são incapazes de discorrer poucas linhas sobre as reflexões contidas em seu trabalho. Essa situação só leva ao descrédito de sua produção e a de toda uma área artística. É devido a essa necessidade de estudo que a maioria dos artistas conceituais vem de uma formação universitária. Muitas vezes, compelidos pela necessidade de estudo, esses artistas acabam produzindo pesquisas de mestrado e doutorado em artes. Atualmente os artistas conceituais produzem através de várias formas de expressão artísticas: vídeo arte, fotografia, instalação, performance, internet art e Land Art. Cada uma dessas formas de expressão leva o artista a novos desafios e muitas vezes a uma volta para as formas de expressão tradicionais das artes, como a pintura, a gravura e a escultura. Esse movimento de Inter-relação entre tradições artísticas tradicionais e contemporâneas tem muitas vezes sido chamado de Neo-Conceitualismo.

Retornando as possíveis relações e diferenças de Resende e o readymade de Duchamp, podemos considerar que Duchamp trocou o objeto industrializado em série de seu local usual para exposição em uma galeria ou museu de arte, ou seja, deslocou de sua função utilitária para uma função artística de forma poética na criação de uma obra de arte. Uma coisa mudada de seu lugar usual para um novo lugar é um meio de transformar o próprio sentido dessa coisa e desses lugares; enquanto Resende em Intervenções Urbanas, usou vagões abandonados para chamar a atenção do espectador desatento, ou seja, as pessoas que usualmente passavam pela área pouco valorizada em um pátio ferroviário desativado na cidade de São Paulo, à beira de uma avenida de intenso tráfego para que a monotonia do cenário urbano fosse quebrada. A repetição de elementos percebidos na intervenção vem evidenciar a repetição tão marcante na própria paisagem de grandes cidades contemporâneas, onde a experiência do espaço é freqüentemente brutalizada pelo descaso público e dominada pela pressa ou indiferença de seus habitantes. Ao fazer uma intervenção artística em local público e em um pátio ferroviário abandonado, o artista dependia da possibilidade de se conquistarem novas relações entre as pessoas e o espaço, tornando o lugar de uma ação diferente, que subverte o ritmo normal das coisas ali dispostas e cria tensões inquietantes, abrindo novos sentidos para essa mesma paisagem da experiência cotidiana.

O sujeito que vai a uma galeria de arte, por exemplo, tem a predisposição de ver arte, enquanto na rua, a arte tem que alterar o foco de atenção do sujeito naturalmente desatento. Duchamp e Resende chamam o público ou o espectador a deixarem de ser apenas um observador passivo, pois o entendimento da obra de arte não é mais direto. A refletirem e saírem da confortável situação de saber, por antecipação, avaliar se uma obra de arte é "ruim" ou "boa". Não somente ir a uma exposição e dizer "essa paisagem está bem composta, a pintura é de qualidade". O público interage, discursa com a obra e tem o trabalho de pensar sobre ela para aceitá-la ou não, entendê-la ou não....

Referências

Ambiente virtual. Síntese 10 – Artes Visuais: Cultura e Criação. Senac.

CD-Room. Artes Visuais: Cultura e Criação. Senac.

Readymade (Wikipédia)

O Mundo da Arte – Enciclopédia das Artes Plásticas em todos os tempos – ARTE MODERNA – 1966- Editora Expressão e Cultura

Mas afinal de contas o que é Arte Conceitual?

Sobre os Readymades

Saussure, F. Curso de Lingüística Geral, SP: Cultrix, 1976.

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