Nem todas as adolescentes e mulheres maduras sabem, de fato, que estão sofrendo algum tipo de agressão psicológica ou assédio moral pelo companheiro ou outra pessoa. Talvez por desconhecerem seus direitos; talvez porque o amor é cego, sufocante, imaturo; talvez porque não tem coragem de ir à delegacia denunciar; talvez porque se sintam encurraladas pelo/pela companheiro/companheira; talvez porque tenham vergonha de ser expor; talvez pelos filhos; talvez por motivos inexplicáveis, pois coração e vida alheia são terras desconhecidas, que não devem ser julgados por amadores.

Não venham me criticar porque resolvi escrever sobre o assunto somente agora, depois que visualizei cenas recidivas das brigas entre um casal de reality show. O assunto veio à baila por ter aberto ferida mal cicatrizada há mais de vinte e sete anos. Sim, vinte e sete anos é tempo suficiente para se esquecer traumas. Mães que perdem filho por algum tiroteio ou doença, conseguem esquecer, de fato, deles? Não, eles sobrevivem na memória e no coração da genitora o resto da vida…

No meu caso reclamar ou choramingar é intempestivo; o tempo passou, correu feito bala, sem direito a pausas e paradas, no entanto, não posso deixar de registrar que alguns traumas empurrados para o baú da memória, vieram à tona, justamente no caso supracitado. Vejam o poder que um agressor tem na vida de uma pessoa! A agressão, quando mal ou não resolvida fica lá no fundo, alfinetando, fazendo abrir certas feridas que foram fechadas com pontos falsos. Certos machucados devem ser fechados com pontos resistentes e firmes, para não se abrirem com futuros trancos e solavancos.

Na minha época não tive ninguém para me avisar sobre violência doméstica e assédio psicológico, e muito menos que eu estava sendo vítima destas agressões. A Emily e milhares de outras mulheres tiveram.

Vocês poderiam me dizer que alguns traumas sofridos em épocas distintas da vida, ficam circunvagando, independentemente se foram bem ou mal resolvidos, na época da ocorrência. Não sou especialista no assunto para traçar uma linha sobre a natureza, o tratamento e a durabilidade dos traumas. Na minha época não se falava em traumas, pois isto era coisa de gente sem serviço. Na minha época não tinha a Lei Maria da Penha! Na minha época não tinha celular, rede social. Na minha época, a adolescente vitimada que engolisse o choro e a humilhação, sem deixar os pais perceberem… Na minha época, o responsável pela agressão psicológica, pelo assédio moral, pelo estupro, pelo aborto, que tinha razão. ‘Quem mandou dar confiança ou confiar em homem? Mulher tem que ser educada, recatada e do lar. Homem é líder, é autoridade, pode tudo, mulher não! Em homem, nada de ruim permanece. ‘ Sim, eu cresci ouvindo estas assertivas.

Na minha época não tive ninguém para me avisar sobre violência doméstica e assédio psicológico, e muito menos que eu estava sendo vítima destas agressões. A Emily e milhares de outras mulheres tiveram. Na minha época não tive o auxílio das redes sociais para publicar na linha de tempo o ato ignóbil do agressor, e ter centenas de internautas que se solidarizariam comigo, ou uma autoridade jurídica que eventualmente pudesse ler minha postagem, e me acudir. A Emily e outras mulheres tiveram ou terão este olhar atento. Sei que não tive conhecimento e esclarecimento, para denunciar o agressor. Não sei o que teria ocorrido, se tivesse realizado a delação. Acredito que o agressor teria complicações com a justiça. Pelas ofensas, pelo assédio e outras graves ocorrências, algum tempo de reclusão e tratamento psiquiátrico. Não estou aqui para discutir uma ocorrência intempestiva. Não estou aqui para amaldiçoá-lo e sequer julgá-lo. O agressor passou ileso, incólume… O que não passou foram as feridas costuradas com pontos superficiais. O que não passará é a minha voz, antes assustada, adolescente e reprimida, hoje, destemida, madura e livre, capaz de dizer que o que é não devidamente denunciado, permanece alfinetando, fazendo abrir feridas em qualquer época da vida.

O correr do tempo suaviza pontos frágeis das cicatrizes, mas não fecha. Feridas da magnitude de uma agressão moral ou assédio moral devem ser tratados com pontos fortes e sólidos, para que lá na frente, depois de vinte e sete anos, nenhuma outra mulher solte o choro ao assistir um jornal televisivo, vendo outra pessoa sendo acuada, na parede, dedo na cara, fala agressiva… Que esta cena não seja a triste recordação da adolescência de mais nenhum outro ser. Que homens e mulheres aprendam, de vez, que no reality show do dia-a-dia a regra básica dos relacionamentos é o RESPEITO!

As informações e opiniões expressas neste texto são de responsabilidade única do autor

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