Foto: Vilma Neres/Flickr/CC

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No último domingo, muitos filhos dividiram o carinho da mãe com os amigos. Alguns, como eu, não puderam ir para casa visitar as suas porque tiveram que sair do ninho para realizar o sonho de se formar numa universidade. E nem sempre esse sonho fica tão perto do lar. Às vezes, fica a alguns poucos quilômetros de distância. Outras vezes, fica em outro estado e até outro país. Aí, quando chega o segundo domingo de maio e não tem como sentir aquele cheirinho que só Ela tem, é preciso se aproveitar da mãe alheia. Nessas horas não podemos ser egoístas: o colega sabe que a exclusividade é de quem recebe a mãe na república, mas não tem problema se alguém tira uma “casquinha” do carinho maternal que transborda nesse ser especial chamado “Mãe”.

Sobre esse assunto, o sentimento que tenho é que a carência afetiva aumenta ainda mais quando chegam dias como o Dia das Mães. Talvez, a do último domingo seja a mais difícil de passar sozinho. Apesar de ser uma data comercial, ela serve para estreitar ainda mais os laços com aquela pessoa que nos encheu de amor, de ensinamentos e de alegria. Para muitos, essa pessoa pode ser aquela avó, que lutou a vida toda para criar os netos quando a filha partiu. Ou aquele pai, que mesmo sem saber trocar uma frauda, encarou o desafio de cuidar sozinho dos filhos. Essa pessoa também pode ser aquela tia que se viu responsável pelos sobrinhos quando a irmã optou por ir embora. A figura da “Mãe” também está presente naquele casal homoafetivo que tanto desejou cuidar de uma criança que não teria perspectiva de um futuro melhor. Independente de quem foi sua referência afetiva, esse dia não é apenas uma data comercial.

Diante disso, posso dizer que tive o privilégio de ter muitas mães ao longo da vida. E, se queres uma dica: você também pode ter várias “mães”. Para isso, basta estar de coração aberto. Tenho como “Mãe” aquela que me gerou durante oito meses – isso porque fui apressadinho demais e vim prematuro – e que tanto tenho apreço. Foi ela, conhecida como Dona Mariana, quem me ensinou a caminhar, trocou minhas fraudas, preparou chá de hortelã, agrião e mel quando minha bronquite atacava. Era ela quem me cobria nas noites frias em que me mexia tanto e não demorava muito depois de pegar no sono. E ficava ao relento. Dona Mariana ainda insiste em colocar alimentos, roupas, xaropes, doces, frutas, sabonetes, agasalhos, cobertores, tudo na minha pequena mala de mão, quando vou visitá-la. É amor que nunca acaba. Mas, além dessa, tenho mais três mães. Para apresentá-las, vou fazer um breve histórico.

 

Todo amor deve ser compartilhado. O de mãe então nem se fala! Esse deveria ser possível armazenar naqueles frascos delicados, tipo de perfume importado, sabe?

 

Quando inventei de seguir carreira da área de computação (acredite: eu já fui de exatas!), fui adotado por uma mãezona. Dona Maria é seu nome. Um doce de pessoa, ela sempre ouvia, pelas manhãs, as orações matinais de um padre bem famoso. Velha amiga da minha família, junto ao esposo, nunca mediu esforços para que me sentisse confortável em sua casa naquele ano tão difícil. Até porque, tinha sido a primeira vez que saí do “ninho”. Quando a lama da Samarco invadiu o distrito de Bento Rodrigues, no ano passado, me ligou desesperada: “Meu filho, você está bem? Ouvi no rádio que a cidade onde você estuda foi tomada pela lama”. Sua preocupação de mãe revelou o quanto o apreço que tenho por ela é recíproco.

Outra mãezona que considero muito é minha tia Florinda. Ela é outra que me acolheu de braços abertos em sua casa durante dois anos de faculdade. Flor, como é chamada, acompanhou de perto todas as noites mal dormidas e cada lágrima derramada pela dificuldade de permanecer num curso que só me fazia infeliz. Religiosa, sempre dizia: “Meu filho, pede a Deus, que todos os nós se desatarão e você irá vencer sua batalha!”. A fé e o olhar maternal de Dona Flor me fez sentir seguro para ir atrás de novos desafios em Ouro Preto.

Até essa parte do texto já adotei duas mães. E não é que tenho o dom para isso? Ao chegar na UFOP, em 2011, tive muita dificuldade de adaptação. E, quando não fui aceito nas tradicionais repúblicas estudantis, fui adotado não apenas por uma mãe, mas por uma família. Eram mães, tias, primos e irmãos. Todos me adotaram e me deixaram sob os cuidados de Dona Célia. Atenciosa, preocupada e decidida, lembro-me de quando ela tomou o telefone da minha mão no momento em que estava convencendo minha “primeira mãe” de que a kitnet que estava para alugar era segura. “Olha aqui, Dona Mariana, você não me conhece, mas eu te garanto que vou cuidar do seu menino, viu? Ele está muito seguro aqui e o que eu e meu marido pudermos fazer por ele, a gente vai fazer. Tá jóia?”. Dona Célia ainda acrescentou: “Aqui ele estará longe de toda a humilhação que sofria na antiga república. Pode ficar tranquila”. E, depois disso, ganhei mais uma mãezona. Foram dois invernos ouropretanos de muitos chás de limão (por causa da gripe constante) seguidos de: “você já tomou café?”; “menino, já vestiu o agasalho?”; “Vou ligar pra sua mãe lá na roça e dizer que você não tá indo à igreja, hein?”… Saudades dessa época!

E é por tudo isso que no último domingo foram quatro ligações desejando um Feliz Dia Das Mães. Como não pude estar com nenhuma das minhas quatro mães, tive que “roubar” um pouco do carinho maternal que meu colega de apartamento recebeu. Ele teve o privilégio de passar a data com sua mãe e avó. Ambas nos visitaram e se encantaram com Ouro Preto. Não sou de causar discórdia, mas aposto que meu colega ficou com ciúmes. Mas não tem problema. Todo amor deve ser compartilhado. O de mãe então nem se fala! Esse deveria ser possível armazenar naqueles frascos delicados, tipo de perfume importado, sabe? O que não iria faltar era estudante voltando com a mala cheia de “amor de mãe”. Enquanto isso não existe, aproveite o tempo com a sua – ou suas – preciosidade chamada “Mãe”. Se quiser, compartilhe o amor dela comigo também. Você já deve ter ouvido aquele ditado muito popular: “Em coração de mãe sempre cabe mais um!”

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