O DJ Simon Green ‘Bonobo’ durante evento em Londres. Foto: Luke Baker/Divulgação

Migration, o novo álbum do Bonobo (Simon Green), foi lançado no dia 13 de janeiro e mantém desde então um crescente número de acessos nas plataformas virtuais. O sexto projeto musical do produtor inglês foi promovido pela Ninja Tune e o fotógrafo Neil Krug ficou com a autoria das imagens que compuseram a arte da capa e das 12 faixas.

As turnês de Green, que atualmente mora em Los Angeles, o levaram para muitos lugares diferentes. Foi depois de oito meses na estrada pelo seu projeto anterior, North Borders (Ninja Tune, 2013), parando a rotina frenética de vôos intercontinentais, que as ideias se acalmaram e Migration pôde ser produzido. Estar em trânsito por diferentes culturas e paisagens deram forma ao que vem a ser o espírito desse novo projeto.

Capa de ‘Migration’. Foto: Divulgação

Além de representarem um assunto importante na vida e nesse novo projeto do DJ, as migrações também foram motivo de atenção no ano de 2016. Com o crescimento do número de refugiados espalhados pelo mundo, as políticas no entorno da questão entraram na pauta da fala de muitas figuras públicas. “Se esse mesmo título tivesse sido lançado há cinco anos, não teria o mesmo significado”, disse Green ao jornal Thump, informativo musical da Vice, mostrando o valor da temática atualmente.

Reconhecendo uma crise à cerca do assunto, a eleição do tema para o cerne da obra revela Green como um artista interessado num contexto maior que o da simples experimentação musical. Contudo, o produto final ao qual temos acesso parece equilibrar bem as influências políticas externas, de um lado; e a ambição por um refinamento estético, de outro. As 12 faixas também contam com uma produção artística que reconhece os caminhos da música eletrônica contemporânea. Feitas com camadas que conversam bem entre si e detalhes que funcionam como intensificadores de sensações, Migration se revela como um projeto estético planejado.


 

Sem deixar de lado a praticidade das plataformas virtuais, Green usou disso para construir a recepção do trabalho que foi sendo liberado em partes até deixar seu público, que já conta com um número substancial de seguidores fiéis, de olhos atentos para as portas de divulgação.

O single “Kerala”, no qual os fãs depositaram a confiança pela qualidade do restante das trilhas, já revelava um projeto importante. Liberado para a degustação junto de um clipe que combina rupturas sucessivas com a catarse frente ao sobrenatural, o trabalho de Green e do diretor Bison repercutiu nas mídias.

Quem estrela no vídeo é a atriz Gemma Aterton, que aparece transtornada nas ruas do subúrbio de Londres por visões misteriosas. As pessoas ao seu redor não entendem o desnorteio de Gemma, apenas ela e o espectador compartilham o inexplicável.

Os sucessivos cortes prendem nossa atenção e a história é contada pouco a pouco com as idas e vindas para quase o mesmo lugar, avançando lentamente. Idas e vindas que lembram os movimentos de chegada e partida dos que transitam pelo mundo. Bonobo não possui muitas músicas honradas com vídeos, mas as faixas têm milhões de visualizações no YouTube.


 

Impossível também não mencionar o trabalho de Neil Krug. O fotógrafo garante um currículo extenso de parcerias no mundo da música. Adele, Devendra Banhart, Boards of Canada e Glass Animals são alguns nomes que se beneficiaram com seu trabalho.

Para Migration, Krug capturou imagens que misturam elementos selvagens e sobrenaturais na paisagem desértica de Los Angeles. Fogo, luzes e fumaças coloridas são misteriosamente colocados no centro da austeridade de paisagens silenciosas. As cores que saltam das fotos existem como se entendessem a sensibilidade das músicas. Som e imagem sugerem um projeto seguro de suas inovações e um artista ciente dos saltos que se propõe a dar.

Algumas faixas também dispõem de parcerias com artistas como Nick Murphy (Chet Faker), Innov Gnawa, Nicole Miglis (Hundred Waters).

O tom melancólico emana de algumas músicas, mesmo sendo poucas as que contém letra. Em “Second Sun”, violinos se mesclam com gradativas interrupções de outros instrumentos acústicos que nos lembram projetos cinemáticos como o de Hans Zimmer na trilha sonora de “Interstellar”.

A própria faixa que abre e dá nome ao álbum também traz essa constituição, mas o que começa com uma progressão lenta logo se torna uma convulsão entre piano e bateria. Os beats densos de “Figures” parecem igualmente se misturar, mas aqui a mescla acontece entre um tom sensual na primeira metade e um momento reflexivo, na segunda.

Observando o álbum na íntegra, imergimos em uma profusão de momentos densos e leves. Simon Green parece guiar-se pela curva, dando vida à música eletrônica pelo horror à linha reta. As fronteiras são bem observadas, contudo, não parecem ser para Bonobo onde as coisas terminam, mas onde elas podem começar.

As informações e opiniões expressas neste texto são de responsabilidade única do autor

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