O jornalista chegou com toda pompa e circunstância para uma entrevista. Estávamos numa sala infestada de quadros, livros, cadeiras e alguns ouvintes. O assunto, de longe, era polêmico. A fala tinha que ser contida, segundo o profissional, mas confesso que tive desejo de falar mais, até por que senti necessidade de complementar o que julguei ser pertinente para aquela matéria, mas o roteiro e a pauta não eram meus. O gran finale ficaria por conta do profissional. Lavei minhas mãos, feito Pôncio Pilatos.

‘Mulheres? Ah, essas mulheres falam muito mais, por isso, às vezes, tenho que cortar, sem dó e piedade… ‘

Ele brincou com uma pitada de ironia, cruzando as pernas. Acredito que mulheres tendem a falar um pouco mais do que os homens. Talvez porque pensam com mais agilidade ou porque nasceram com hormônios especiais para serem completas, objetivas, sem perder a poeticidade. Até porque o assunto era poesia, então nada mais justo do que deixar as palavras de um poeta fluírem. Ali não tinha ninguém propenso à verborreia ou logorreia.  Ali, naquele ambiente impregnado de arte, ninguém (nem mesmo as mulheres que soltam a voz), tinha loquacidade exagerada de falar excessivamente. Não! Ali, tínhamos uma missão, e não havia espaço para compulsões. Ali, tínhamos que dar vazão à poesia. Ora, pois. Mas com tanto não-me-fales (não me digas, deixe pra outra hora, não falemos disso, não falemos daquilo…), o nervosismo tomou conta, dando vazão a um velho distúrbio da fala ocorrido no período da infância, surgindo do fundo da garganta. A detestável dislalia. Eu que achei que ela tinha sido extirpada com sessões de fonoaudiologia realizadas no período paleolítico de minha infância! Que nada. Ela surgiu, num momento de estresse, como se sempre estivesse ali, rondando, esperando o momento certo, para se levantar das cinzas reinando e conduzindo minha fala, a torto e a direito, ao pronunciar o nome daquele profissional:

– Então, Glau…

– Não é, GLAU! É CLAU! É Clau-co! Clauco! Corrigiu pela primeira vez, com doses nada generosas de paciência.

Continuamos a entrevista sem interrupções. Eu respondia as perguntas de forma mais sintética possível, abandonando alguns detalhes que julguei necessários para a reportagem, ao vê-lo levantar a mão, mostrando que era hora de parar de falar. Não sei se olhava para as mãos agitadas dele, que a qualquer momento de minha fala subiriam me informando que era hora de parar, ou se me concentrava nas breves respostas para aquela matéria. Respirei profundamente, até cometer mais um pequeno deslize ao chamá-lo pelo nome. Nome difícil de ser pronunciado. Nunca corrigi alguém que tivesse dificuldade de pronunciar meu sobrenome.  Já fui chamada de Donavon, Donaldon, Donalvon, Danadon, Donald, Donalvan, etc, e nunca perdi a paciência pelas trocas. Até porque pessoas podem ter dificuldade de articular determinadas palavras, por motivos diversos, inclusive por alterações emocionais. Pois bem, a alteração emocional, no meu caso, surgiu no momento, diga-se infeliz, em que tentei pronunciar o nome dele pela segunda vez:

– Para falar a verdade, Glauco… Desculpe, é Glau… Glauco! Isto mesmo…

Ele me interrompeu. Não percebi que tinha cometido a mesma troca de letra, em três tentativas. Que dia infeliz, o meu. O cinegrafista começou a rir, disfarçadamente, tirando a câmara dos ombros.

O rosto do entrevistador ficou vermelho. O meu já tinha atingido uma cor bem mais animada e viva: bordô. Antes que ele demonstrasse irritação na fala, me corrigindo mais uma vez, destrambelhei:

– Não consigo falar seu nome! Se eu pensar em Cláudio, vou conseguir falar, mas tenho que interromper a pronúncia da segunda sílaba do nome CLÁUDIO. Não dá pra fazer isto, com sua ‘mão controlando minha fala e meu pensamento’, o tempo inteiro. Enquanto o senhor, CLAU, vou lhe chamar assim, tem compulsão em me cortar…

– Está bom, Donavon, quer dizer, Donalvon… Desligue esta mánica! Ah, isto pega, né?

Eu, o cinegrafista, o repórter e os ouvintes começamos a rir.

Ah, esta poeticidade mágica que surgiu como passe de mágica, teimando em travar nossas pronúncias foi providencial, para mostrar que ela, a poesia, não dá a mínima bola para não-me-fales, não-me-digas, e não deixes a palavra fluir.

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