Aquele recinto me causou certa onda de medo; não medo neurótico de que algo ruim pudesse acontecer pelo simples fato de estar ali, vitimada pela imprevisibilidade de determinados acidentes naturais, ou pelo teto e parede que não apresentam aparentes rachaduras, se desmoronando de uma hora para outra; ou pela perversidade possível da cabeça de algumas pessoas. A insegurança, no entanto, com o andamento e cumprimento do que fora planejado, era outra incógnita que teria que ser percorrida.

O estabelecimento não oferecia boas-vindas: nada de pinturas coloridas, placas convidativas e de alto-astral em sua fachada.  Talvez não seja proibido o uso de cores alegres naquele lugar, mas o padrão tinha que ser seguido à risca, de modo que o local devesse manter a fachada de sobriedade, similar à moderação, à temperança, ao equilíbrio equivalentes ao sombrio. Os que estavam ali também não passavam sensação de boa nem de má receptividade, apesar de a presença de colaboradores ser requisitada, porque cumpria o que mandava a convenção. Alguns protocolos foram cumpridos com tamanha sobriedade, que chegaram a passar uma onda quase gélida na minha espinha. Colaborar, muitas vezes, tem um preço alto, para quem está simplesmente disposto a ajudar, sem ganhar qualquer subvenção financeira. O preço é a usuária desconfiança, apesar de sua vida e atividades serem pesquisadas e conhecidas, ficou um cheiro de agastamento no ar.

Aquelas paredes com infiltrações me fizeram lembrar um dia de inverno triste, frio e cinzento, que me levaram a um súbito mal-estar físico e espiritual.

Senti frio ao adentrar o estabelecimento impregnado de mofo, umidade e pouquíssima luz, apesar do extremo calor e abafamento do tempo. Gotas de suor frio impregnavam costas e cabelos; tremi, de forma imperceptível para os observadores, quando me fizeram questionamentos sobre as atividades que seriam severamente monitorizadas. Senti-me intrusa. Senti-me quase em contravenção por tentar ajudar. Respondi às perguntas com a voz segura, certa dos meios e fins que me levaram até aquele lugar. Depois de todos os protocolos cumpridos à risca, começamos a percorrer diversas salas. Cheiro forte de corpos, umidade e mofo atingiram narinas. Eu de novo com pensamento de que quaisquer lugares, com mais força os que têm a missão de recuperar o ser humano, deveriam usar em suas paredes internas e externas, cores vivas, que ajudam a devolver o equilíbrio à mente, ao corpo e ao espírito. Aquelas paredes com infiltrações me fizeram lembrar um dia de inverno triste, frio e cinzento, que me levaram a um súbito mal-estar físico e espiritual. Aspergi, internamente, gotas de energias poupadas pela memória, lembrando-me do dia de sol de Clarice, em que a praia estava cheia de vento bom e de uma liberdade. E eu estava só. Sem precisar de ninguém (…). O mar calmo (…)’. Ali, independentemente da estação, estava fazendo um ciclo interminável de inverno, em que as ruas estavam impregnadas de ventos depressivos e reclusos; em que os montes verdejantes eram tingidos por névoas densas; em que o mar apresentava intensa inquietação com ondas bravias e angustiantes; em que algo de bom quase nunca está a acontecer; em que o silêncio é extremamente ensurdecedor; em que momentos são meros pesadelos… Ali, ouvi um zumbido gritante que chamei de estado agudo de agonia; respirei com força, movida pelas lembranças de um dia pleno de sol, prosseguindo para outros locais, ganhando confiança e energia com o desenvolvimento das atividades. Percebi, com o tempo, que a recepção fria e quase desinteressada serviu de escudo para os que desconheciam a simples finalidade do ato de doar tempo. A desconfiança é algo inerente da raça, compreendo perfeitamente este comportamento instintivo, mas o calor humano que emanou de cada pedaço de papel aberto e lido, causou sentimentos naqueles rostos de expressões cinzentas. A praia, de repente, presentificou-se ali, com o vento bom, transbordando luz naquele recinto opaco, que antes me causou uma onda de medo e insegurança. O sol e as cores vibrantes estavam postas ali, em que algo bom sempre está a acontecer, quando nos tornamos receptivos à energia de desenhos, letras, palavras, orações e poesia, surtindo efeito de um dia de sol claro que aqueceu e iluminou paredes descascadas, encardidas, mofadas, úmidas e frias daquelas salas, que por alguns minutos, transformaram-se em dia de vento propício, em que portas são abertas espontaneamente, para um voo rasante de liberdade.

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