Nas extremidades de Mariana, bairros como Cabanas e Santa Clara se tornam adensados. Foto: Agliene Melquíades/VERTICES.

Em Mariana bairros como Cabanas e Santa Clara se tornam adensados às margens, do poder público e de moradores. Foto: Rodrigo Sena/VERTICES.

Os morros pesam a carga dos ombros de quem lá vive, e a visão de quem lá nunca foi. Mariana e seu povo sempre foram explorados. Pelo ouro, pelo minério, por quem fica quatro anos ou somente por uma tarde. O colono e o temporário, separados por séculos, às vezes se associam como se fossem um. Os nativos de ontem eram os indígenas nessa terra brasileira muito explorada. Com a colonização, o cidadão marianense não tem cor, mas tem ainda o mesmo nome, batizado por quem está só de passagem e não se preocupa em conhecer de perto os filhos dessa terra: são ainda hoje apelidados de “nativos”.

As ruas coloridas da cidade escondem um passado de sangue e ofuscam o que já é inviabilizado. Se os casarões do centro são amarelos, azuis, vermelho e verde, os morros todos se pintam de preto. Negras são grande parte das pessoas de classe baixa que moram lá no alto, no fim do morro; negra é a identidade de que se orgulham, e escura é a vida que elas levam. Às sombras no centro, no caos da periferia a perder de vista.

Quem chega reclama, que Mariana é na verdade Marilama, uma roça, o vale que sufoca e não tem para onde correr. Afinal, o que existe além do Centro e da Ufop? Existe a Arena, que descobriram quando foram ajudar os desabrigados. Existem as cachoeiras, e o Santo Antônio, comumente chamado de ‘Prainha’, por onde se passa para chegar até elas. Mas ele só existe porque dizem ser inseguro. Não dá para fechar os olhos quando o fantasma invisível é também considerado perigoso.

Onde estão os morros? O Alto do Rosário, o Santa Clara, e os tantos outros soterrados aos olhos do poder público e de quem neles não vive e não passa? Não sejamos hipócritas. Quem escreve esse artigo só enumera dois, pois só passou a olhar para eles quando viu que lá as casas são coloridas, que nem o centro, que nem a favela. Se não fossem as cores da elite, quem olharia à distancia para eles? É como funk ostentação, mas aí é outro debate.

Quando o Jardim se enche, os turistas se assustam. Muitos estudantes também. De onde surgiu tanta gente? Mariana, com cara de 20 mil habitantes, mostra seus mais de 60 mil nas festas, quando o Morro deixa de ser a toca, e o centro passa a ser reduto. Reduto com olhos tortos, vindo dos invasores que gostam de falar “nativo”.

Enquanto isso o povo do morro continua invadindo áreas irregulares, e a população flutuante do centro continua ocupando. No fundo, quem invade é quem foi invadido e teve o Centro renegado, arrastando-se morro acima para a periferia. E quem invade é aquele que chega no centro, reclama da cidade por quatro anos, não se move nem conhece nada. Só o caos do cotidiano erudito. E aquele que ocupa o centro e vai para as periferias? E critica, e tenta mudar, e debate, e reclama, e ajuda? Ah, esse é quase um cidadão marianense. E você aí, leitor, é o quê?

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