Grupo ‘Justiça Sim, Desemprego Não’ organiza passeatas em Mariana pela volta da mineradora. Foto: Agliene Melquíades/VERTICES

O que se vê é uma tentativa de justiçamento na construção de réus tanto de pessoa jurídica quanto física. Justiçamento ocorre quando a verdade não é mais o fim de um processo investigatório e judicial, mas sim a condenação exemplar em resposta ao maior desastre ambiental do nosso país. Afinal, uma resposta tem de ser dada à sociedade brasileira e estrangeira. Como um desastre nestas proporções onde vidas foram perdidas e o meio ambiente teve alto impacto pode ser um acidente? É preciso ter muita coragem para defender a verdade em um contexto de sociedade bipolar, onde você é contra ou a favor. Perdemos a habilidade de discutir ideias para se chegar a um denominador comum, e o que é pior, estabelecer a verdade nua e crua que nem sempre é o que interessa para a mídia.

Vejam o que o relatório Painel de Revisão da Barragem de Rejeitos de Fundão (“Fundão Tailings Dam Review Panel”) encomendado pela Vale, BHP Billiton e Samarco sobre a investigação do rompimento diz no seu Apêndice I (Análise de Deformação da Ombreira Esquerda):

  • “… a razão de instabilidade do modelo sem lamas incluído na ombreira esquerda seria da ordem de 0.5, insuficiente para iniciar liquefação.”
  • “Se lamas não estivessem presentes na região da ombreira esquerda, o colapso que levou à liquefação não teria ocorrido em novembro de 2015.”

Resultados de análises de estabilidade apresentados nos relatórios do Painel de Revisão da Barragem de Rejeitos de Fundão e da Geomecânica-NGI, este encomendado pelo próprio MPMG, realizadas com mesmo foco, ou seja, análises de estabilidade estáticas convencionais em tensões efetivas, levam a fator de segurança de aproximadamente 2,5. Portanto acima do recomendado em norma técnica de 1,5.

Deixar a engenharia se defender fica em segundo plano quando não há comprometimento na busca da verdade

O mecanismo de ruptura diagnosticado no Painel de Revisão da Barragem de Rejeitos de Fundão (extrusão lateral de camadas de lama), seria de difícil antecipação; a bibliografia praticamente não se refere a situações em que rupturas tenham ocorrido por atuação deste tipo de mecanismo, e análises de estabilidade tipo equilíbrio limite estáticas convencionais, como àquelas apresentadas nos documentos de projeto e de empresas de consultoria especializada não avaliam o mecanismo que veio a ocorrer.

Deixar a engenharia se defender fica em segundo plano quando não há comprometimento na busca da verdade, pois esta não venderá jornais e tão pouco trará luz de holofotes.

Agora promotores buscam ampliar o processo de licenciamento da estrutura de disposição de rejeito para todo o complexo minerário de Germano. Isto arrastaria o processo sem adicionar valor, pois as autoridades já têm todos os documentos relevantes do licenciamento das minas e concentradores. Mas não especificam como operação de mina e usinas de beneficiamento, já licenciadas, podem contribuir para esse suposto "outro desastre" (e qual é!). Os documentos do licenciamento são públicos, que apontam as potenciais falhas para contribuir para a discussão, sem quererem simplesmente arrastar o processo de retomada das operações da Samarco. A urgência é para dar de volta à milhares de famílias, de onde a Samarco atua de Minas Gerais ao Espírito Santo, a dignidade de colocar comida na mesa para seus filhos e garantir o teto onde moram. Coisa que os que discursam contra já tem garantido.

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