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Os caminhos da tragédia: Um ano após a barragem romper

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DE MARIANA
DOS ENVIADOS ESPECIAIS À BENTO RODRIGUES

A tragédia

O dia 5 de novembro, na cidade de Mariana, é marcado pela tragédia causada pelo rompimento da barragem do Fundão, que completa um ano. Cerca de 50 milhões de metros cúbicos de lama, composta de rejeitos resultantes da produção de minério de ferro, tiraram 19 vidas, deixaram 256 feridos e centenas de pessoas desabrigadas. A barragem do Fundão pertence a um complexo que inclui outros dois barramentos, o de Germano e o de Santarém, sendo essas de propriedade da Samarco, empresa controlada pela brasileira Vale e pela australiana BHP Billiton, duas das maiores mineradoras do mundo.

Aqui era tudo pra gente, era o melhor lugar para viver.

Cristiano José, ex-morador de Bento Rodrigues

Naquele dia, por volta das 15h30, a estrutura da barragem se rompeu. A lama atingiu os trabalhadores, e em onze minutos, chegou a Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana, que fica a 35 km do centro histórico da cidade e cerca de 124 km da capital mineira, Belo Horizonte. Dentre os 600 habitantes que viviam por lá, aqueles que estavam no subdistrito tiveram que abandonar suas casas, seus pertences e fugiram para se abrigar nos pontos mais altos da região, com a esperança de não serem alcançados pela lama e enquanto esperavam o resgate do Corpo de Bombeiros. Os moradores apontaram a ausência de sirenes que pudessem emitir um sinal de alerta. De acordo com a Samarco, o aviso sobre o rompimento foi realizado por telefone, porém, a empresa nunca conseguiu confirmar quantas pessoas receberam a ligação.

Em meio ao caos instalado, alguns voluntários e a Prefeitura de Mariana deram início a uma campanha de arrecadação de doações, que começaram a chegar na cidade vindas de todo o país. Itens mais urgentes, como água e objetos de higiene pessoal foram priorizados, mas também foram recebidos sapatos, roupas, brinquedos, cobertores e outros donativos. Uma conta bancária foi aberta em nome da Prefeitura para receber as doações em dinheiro. Os desabrigados foram alojados inicialmente na Arena Mariana, depois acolhidos em hotéis e pousadas da cidade e, após longa espera, realocados para casas providenciadas pela Samarco. A Prefeitura cancelou suas atividades até o dia 16 do mesmo mês, alegando que estava “focada nos trabalhos de resgate e suporte aos atingidos”.

Além do dano à comunidade de Mariana e região, a onda de lama deixou seu rastro em 230 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo contemplados pela bacia hidrográfica do Rio Doce, fazendo com que 424 mil pessoas ficassem sem abastecimento de água. Ao atingir o Rio, a lama também prejudicou os moradores que obtinham seu sustento por meio da pesca e da agropecuária. Em declarações à imprensa, ambientalistas afirmam que os prejuízos ambientais causados pelos rejeitos de minério ainda permanecerão por, pelo menos, 100 anos.

O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ressalta que dentre as 80 espécies de peixes pertencentes ao habitat do Rio Doce, 11 delas estão ameaçadas de extinção, e 12 só existem nessa bacia hidrográfica, podendo ser completamente extintas pela disseminação da lama.

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Ainda hoje, o subdistrito de Bento Rodrigues possui resquícios da destruição causada pelos 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Foto: Flávio Ribeiro/VERTICES

Saúde em xeque

As três barragens do Complexo Germano – Fundão, Germano e Santarém – recebiam os rejeitos, fruto da extração do minério de ferro, e funcionavam pelo sistema de aterro hidráulico, usado mundialmente. Os rejeitos precisam ser devidamente armazenados para evitar danos sociais e ambientais. Mesmo após os estragos gerados pela tragédia, a Samarco afirma que as barragens operam “de maneira controlada, planejada e segura”.

Sobre as dúvidas por parte da população a respeito da possível toxicidade dos rejeitos, a mineradora informou que eles não possuem elementos químicos que prejudiquem a saúde, e que grande parte da lama é formada por areia. Porém, o Ibama aponta que, além de areia, a lama apresenta alto índice de óxido de ferro. Se inalada ou ingerida em grandes quantidades, essa substância pode causar irritação nos pulmões e no estômago. Pablo Dias, voluntário e colaborador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), relatou ao VERTICES que o Ministério Público de Minas Gerais considera a água proveniente do Rio Doce e invadida pelos rejeitos como não potável e, portanto, imprópria para consumo.

Responsabilidades

Ao todo, desde o rompimento da barragem do Fundão, 21 pessoas foram denunciadas por homicídio doloso e uma por fraude em documentação, além de quatro empresas indiciadas por crimes ambientais. Um inquérito foi encaminhado pelo Ministério Público à Justiça Federal em fevereiro deste ano, solicitando a prisão do até então presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, e outras seis pessoas. Entretanto, ninguém foi preso até o momento.

No dia 12 de novembro de 2015, o Ibama ainda aplicou cinco multas à empresa no valor de R$ 50 milhões cada uma, limite estipulado pela legislação brasileira, totalizando R$ 250 milhões. Porém, em maio do mesmo ano, o instituto aplicou uma sexta multa que, somada ao valor anterior, totalizou cerca de R$ 292 milhões. As autuações à Samarco foram feitas porque, segundo o Ibama, a mineradora pôs em risco a saúde humana, interrompeu o abastecimento de água, causou perda de biodiversidade e a morte de animais, poluiu rios e lançou resíduos contra as exigências legais.

O Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais (Nucam), que tem sede em Belo Horizonte, firmou contrato com a mineradora, declarando que ela pagaria um caução socioambiental no valor de R$ 1 bilhão. Outro acordo assinado em março deste ano pela Samarco, pela União e pelos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, aprovado em maio, instituiu uma quantia de R$ 20 bilhões destinados à recuperação da bacia do Rio Doce; no entanto, diante das reclamações do Ministério Público Federal alegando que o acordo não era legítimo -já que não considerou a opinião dos atingidos-, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) cancelou a homologação em julho.

Na época, segundo nota emitida pela Vale, a Samarco continuaria cumprindo as medidas de recuperação socioambiental e as reparações aos atingidos, mas também entraria com ações judiciais para que o acordo fosse autorizado. No início do mês de agosto, o Ministério Público de Minas Gerais pediu à Justiça que a mineradora pagasse aproximadamente R$ 1 milhão às 105 famílias, afirmando que a empresa teria desrespeitado direitos dos moradores afetados pelo rompimento da barragem.

As multas mais recentes foram aplicadas à Samarco pelo Ibama na terça-feira, dia 1 de novembro. São três autos de infração, sendo um deles no valor diário de R$ 500 mil, outro no total de R$ 151 mil e o último em R$ 201 mil. As três multas são justificadas pelo argumento de que a mineradora não acatou às decisões legais sobre a contenção dos rejeitos e os planos de recuperação ambiental. Já são dez penalidades do Ibama atribuídas à mineradora, considerando as três últimas e mais sete anteriores.

A pedido do Ministério Público de Minas Gerais e por decisão do juiz Michel Curi e Silva, da 1ª Vara da Fazenda Pública Estadual, as licenças do Complexo Germano estão suspensas. A Samarco afirma que sirenes foram instaladas em distritos de Mariana e que, em março, a empresa apoiou as ações da Defesa Civil Estadual que simularam situações de emergência com as comunidades

Os protestos

Desde que a população marianense viu o turismo se enfraquecer e o desemprego aumentar – segundo a Prefeitura, oito mil pessoas ficaram desempregadas após a paralisação das atividades da Samarco -, moradores da cidade e funcionários da empresa protestaram indo às ruas, pedindo a liberação das licenças para que as atividades da empresa pudessem continuar. Também houveram protestos que cobravam providências da mineradora sobre a construção da nova comunidade e o destino que seria dado às terras do antigo Bento Rodrigues. Um deles aconteceu no dia 13 de agosto, entre 8h e 11h da manhã, e contou com cerca de 100 manifestantes que se agruparam na MG-262.

Já entre os dias 3 e 5 de novembro, o MAB organizou um encontro com programação que incluiu mesas de debate e reuniu representantes dos atingidos, Prefeitura, promotores de justiça, a Arquidiocese de Mariana e outros convidados. Em razão da visibilidade do evento, grupos pró-Samarco, como o “Justiça sim, desemprego não” também se mobilizaram para o dia 5 de novembro.

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Com as licenças de operação embargadas pelo governo estadual, é permitido que a empresa realize apenas obras de contenções, como o alteamento do dique S3 e construção do dique S4. Foto: Nathalya Saiki/Divulgação

Uma nova comunidade

Apesar das discussões entre os moradores afetados, os órgãos públicos e a empresa sobre o futuro do terreno onde ficava o distrito de Bento Rodrigues, nada foi decidido. Por meio de nota, a mineradora comunicou que já estabeleceu, juntamente com os moradores, o local em que será erguido o novo distrito.

Em maio deste ano, um acordo entre Samarco, Vale, BHP Billiton e os governos federal e estadual definiu que a construção das moradias na nova comunidade seja concluída até 2019, em terreno conhecido como Lavoura, cuja proprietária é a empresa siderúrgica ArcelorMittal. O espaço fica localizado a cerca de oito quilômetros do centro histórico de Mariana e a cerca de nove do antigo Bento Rodrigues.

De acordo com Mônica dos Santos, 31 anos, auxiliar odontológica e integrante da Comissão de ex-moradores, ainda existem muitas divergências ligadas à construção do “Novo Bento”, principalmente envolvendo as propostas lançadas pela Comissão e rebatidas pela Samarco.

Um dos agravantes, segundo Mônica, são as famílias que a empresa ainda não reconhece como antigas moradoras de Bento Rodrigues e que, por isso, não receberam nenhum auxílio até o momento. “Se eu não me engano, são nove famílias”, diz ela.

As memórias retornam

Faltando três dias para a tragédia do rompimento da barragem do Fundão completar um ano, o dia 2 de novembro, Dia de Finados, começou cedo para muitos. A data foi marcada por uma missa na Igreja de Nossa Senhora das Mercês, em Bento Rodrigues. A celebração religiosa reuniu os antigos moradores que perderam familiares e amigos na tragédia.

Há 15 dias, o tio de Cristiano José Sales, o senhor Henrique Gonçalves Bretas, 68, faleceu devido a um infarto. De acordo com o sobrinho, o motivo foi a tristeza após sair de Bento Rodrigues. Cristiano ajudou na limpeza da igreja e na celebração da missa no Dia de Finados, rezando por seu tio, que entrou em depressão ao perder os animais que possuía, como as vacas, além do próprio lar.

Cristiano, que é motorista, conta que dos seus 34 anos de vida, morou 33 deles em Bento, e que apesar de sentir muita diferença na mudança para Mariana, sente ainda menos que seus pais, pois já trabalhava na cidade, indo e voltando todos os dias para o subdistrito. Foi em uma de suas voltas para Bento que ele encontrou o mar de lama, bloqueando a estrada para chegar a sua casa, e conta que Deus o fez com que saísse mais tarde de Mariana,  conseguindo desse modo escapar da tragédia.

“Quando venho aqui [em Bento Rodrigues], tenho um pouco de tristeza, mas ao mesmo tempo um pouco de alegria, não a que a gente tinha antes. Aqui era tudo pra gente, era o melhor lugar para viver.” No Dia de Finados, há exatamente um ano, Cristiano diz que estava reunido com os amigos no “Bar da Sandra contando histórias, ouvindo músicas e tomando cerveja.”

Quando questionado sobre o futuro, Cristiano diz que não tem planos, pois após o rompimento da barragem, percebeu o quanto as possibilidades são imprevisíveis. “Vamos vivendo na vontade de Deus”, completa.

Além da inconveniente alteração que ocorreu em sua vida após a tragédia e o triste falecimento de um familiar, Cristiano descreve que o sossego de Bento Rodrigues agora se perdeu. “O que a gente tem em Mariana hoje, não é a mesma coisa.”, lamenta ele, que pretende continuar visitando o que restou da antiga comunidade.

Entre justiça e mágoas

A missa também foi cenário de alguns desentendimentos entre antigos moradores de Bento e funcionários da Samarco. A empresa possui a chave do portão da Igreja, e deveria abri-lo para o grupo de antigos moradores que faria a limpeza do local para a celebração às 8h. Porém quando o grupo chegou, o portão se encontrava trancado e ninguém veio abri-lo. Os antigos moradores ficaram indignados com a falta de comprometimento da Samarco, que foi citada várias vezes durante a missa, na maior parte do tempo com ênfase na falta de liberdade dos atingidos em uma terra que é deles.

A celebração da missa no dia de Finados foi marcada por muitas críticas à Samarco. Mauro Marcos da Silva, 47, empresário, foi à frente do altar quando o Padre Geraldo Barbosa, 54, indagou se algum dos presentes teria algo a dizer.

O empresário, recordando nesse momento o episódio em que fora criticado numa audiência entre os atingidos e a empresa, no altar desabafou: “Onde tiver injustiça no Bento eu vou estar lá, lutando sim! O Bento Novo é uma promessa do futuro, mas nós não podemos deixar o Bento Antigo morre, e nós vamos continuar lutando!”

Antes do tradicional abraço de comunhão, o Padre Geraldo declamou que “a paz é fruto da justiça. Água, minério e energia, não são mercadoria! Muito menos a pessoa humana.” O momento encerrou a missa de Finados, com a formação de um círculo em homenagem às vítimas daquele 5 de novembro.

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Moradores e amigos se reúnem no cemitério de Bento Rodrigues, em memória aos Finados. Foto: Nathalya Saiki

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