“Por que você não mora em Mariana?”. Essa é a pergunta que escuto quando digo que moro em Ouro Preto e faço jornalismo no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (Ufop), em Mariana. Explico que antes fazia um curso na área de exatas em Ouro Preto e por isso, não morava na cidade vizinha.

“Ok. Mas então por que você não se mudou para cá depois que começou a fazer jornalismo?”, questionam.  Essa é uma pergunta que nem eu sei responder.

Com exceção do calor extremo e das ladeiras, Mariana tem tudo o que Ouro Preto possui: igrejas centenárias, museus, ruas de pedra, artistas, estudantes, festas de repúblicas (conhecidas como “rocks”), festivais e também muita história. Logo, por que não morar em Mariana? Já que tem tudo o que desfruto em Ouro Preto, por que preferir esperar um ônibus que demora e que, quando passa, nos reserva surpresas, como aumentos abusivos – e repentinos – no valor da passagem…? Por que viver em Ouro Preto e ter de sair de casa com moletom, cachecol, guarda-chuva e ir me despindo no caminho até Mariana?  Afinal, o calor de quase quarenta graus da primaz de Minas já dá pra ser sentido assim que nos aproximamos do distrito de Passagem. Duas cidades tão próximas, tão semelhantes, e ao mesmo tempo, tão distintas quando o assunto é temperatura!

Em Ouro Preto temos a Bauxita, como o bairro composto primordialmente, por quem se considera “de fora”. Em Mariana temos os que moram no bairro Cabanas, que quando necessitam resolver assuntos no centro histórico, dizem “preciso ir à Mariana”ou “preciso ir à cidade”. Também é comum ouvir de quem mora nas áreas centrais da cidade que, todo fim de semana, o pessoal do morro desce para o Jardim, a praça principal que leva o nome de Gomes Freire. Aqui em Ouro Preto isso também é muito comum. Por diversas vezes, quando frequentava um bar famoso, antes localizado no centro, cheguei a ouvir de alguns colegas que “o morro tinha descido” e que seria perigoso se a gente continuasse frequentando aquele ambiente.

Percebi que a ocupação dos espaços públicos pelas pessoas de periferias sociais de Mariana e Ouro Preto incomoda.  E sabe por que? Porque toca numa ferida aberta da história do Brasil e que nunca cicatrizou: o racismo. Quando o morro ocupa esses espaços sem ser no lugar de mão-de-obra ou de prestação de serviços, muitos enxergam isso como uma afronta. Ver as pessoas ocupando praças, espaços culturais e shows pela cidade, espaços antes frequentados apenas pela “Casa Grande”, é quase uma ofensa para muitos que praticam o racismo velado e que dizem “não tenho preconceito, mas…”.

Além do racismo, a enorme desigualdade social brasileira, aprofundada durante o regime militar, reforça o preconceito de classe. Não querem aceitar que o morador do bairro Cabanas, Santa Rita de Cássia, Santo Antônio, se assente no banco do Jardim em companhia do estudante universitário. Do mesmo jeito que não querem que o jovem do bairro Piedade ou Morro Santana se assente à mesa do bar em Ouro Preto, perto dos turistas gringos. Acredito que tais espaços devam ser cada vez mais ocupados. E digo mais: que isso seja apenas uma pequena demonstração de que essas pessoas não estarão mais sujeitas a ocuparem o lugar de marginalidade imposto pela sociedade.

Nas suas diferenças e similaridades, ourpretanos e marianenses compartilham muita coisa. Uma delas é que seus cidadãos, principalmente os que residem nas periferias sociais, não são vistos como patrimônio. As igrejas, museus e monumentos ganham uma dimensão valiosa e se sobrepõem àquilo que mais deveria ser preservado e valorizado. As duas cidades têm um passado marcado por histórias de resistência, e cada uma à sua maneira vive um presente similar, onde a luta por (re)existirem ainda se faz necessária.

Por fim, não acredito que haverá uma resposta sobre o porquê de eu  ter escolhido morar em Ouro Preto e não em Mariana. Apenas há a certeza de que, independente de onde eu morasse, ocuparia um espaço que infelizmente, ainda é para poucos: o de estudante universitário. Ao ocupar esse lugar – que é privilegiado – , e para além de optar entre morar nas duas joias mineiras, a pergunta que devo fazer é a seguinte: o que vou deixar para as pessoas que aqui permanecerão?

Afinal, para mim, são elas o verdadeiro patrimônio.

As informações e opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade única do autor.

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