DE MARIANA – Após uma sessão que durou mais de dez horas, foi aprovada na Câmara dos Deputados, na madrugada de quinta-feira (27), o projeto que altera as regras trabalhistas determinadas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Por 296 votos favoráveis contra 177, a CLT, originada na década de 40 no governo de Getúlio Vargas, caminhou mais um passo para ser reformulada e alterar definitivamente a relação entre as empresas e os trabalhadores brasileiros.

Temas como o plano de cargos e salários, parcelamento de férias e a possibilidade de aumento das horas de trabalho são alguns dos pontos que irão afetar os profissionais, caso a reforma trabalhista a ser implantada por Michel Temer (PMDB) seja aprovada também pelo Senado.

Com a indignação e o repúdio coletivo provocado pelas mudanças propostas, diversos movimentos sociais, centrais sindicais e categorias se organizaram pelo país e foram às ruas protestar em Greve Geral, que ocorreu na sexta-feira (28), ao longo de todo o dia.

Trânsito impedido

Em Mariana, o ato foi convocado pelo ‘Comitê pela Greve Geral’, uma das frentes que reúne trabalhadores e estudantes contra as reformas do atual governo.

As manifestações na cidade começaram cedo, por volta das 5h da manhã, com o trancamento da rodovia MG 356, por onde trafegam os ônibus fretados da mineradora Vale. O ato, que durou até às 9h, teve discurso dos organizadores sobre a atual situação política do país. Alguns trabalhadores da Vale desceram dos ônibus que estavam parados no local e complementaram o ato.

De acordo com Yuri Gomes, um dos membros do Comitê, a primeira reunião do grupo, em abril, contou com cerca de 50 pessoas e foi crescendo desde então, até a consolidação do protesto.

“O surgimento desses comitês é uma entre as diversas demonstrações de que vivemos uma conjuntura na qual os trabalhadores e estudantes estão dispostos a sair para as ruas, fazer greve, ocupações, portanto, lutar pelos seus direitos”, afirma Gomes.

Milhares nas ruas

Já no centro histórico de Mariana, na Praça Minas Gerais, cerca de mil pessoas participaram das reivindicações, que mobilizou discursos de trabalhadores e representantes sindicais.

A fanfarra da ‘Escola Estadual Coronel Benjamin Guimarães’ e o ‘Bloco do Boqueirão’, ambos do distrito de Passagem de Mariana, também estiveram presentes. Mesmo com a chuva forte, uma passeata saiu pela cidade, percorrendo o centro comercial aos gritos de ordem de “Fora, Temer” e “A nossa luta unificou, é estudante, professor e trabalhador”.

Dois instantes marcaram o encerramento do ato marianense. Um deles foi a queima de folhas com os nomes dos deputados mineiros que votaram a favor da reforma da CLT. Em outro momento, um “Judas Temer” foi queimado, representando a rejeição ao governo do presidente, que está no poder há quase oito meses.

Para a professora de Jornalismo Político e Econômico da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Hila Rodrigues, apesar do governo Michel Temer possuir apenas 4% de aprovação, a massa social que apóia as reformas trabalhistas propostas por ele ainda é grande e faz a balança das decisões governamentais pesarem para o alvo “mais fácil”, o do trabalhador.

Ainda assim, a professora afirma ter esperança de que a situação se reverta. “Vivendo o que eu vivi, por exemplo a luta pelas Diretas [Já], é assim que começa, começa na rua: um ato, dois atos, três atos, cada vez mais pessoas, até que as coisas voltem ao normal. Ao normal significa: até que as pessoas consigam viver em pé de igualdade e dignamente”, conclui Hila.

Para o representante do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (SindUTE) e membro da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Fábio Garrido, a consolidação de um ato como este mostra a importância da participação da população nas decisões do governo.

“Essa greve geral dá o exemplo do que a unidade dos trabalhadores e dos sindicatos pode fazer. Isso mostra que as reformas de Temer são inaceitáveis, inclusive para as centrais [sindicais], que a princípio apoiaram o seu governo e que hoje percebem que é impossível conviver com esse tipo de administração”, completa Garrido.

O que diz o governo

Apesar dos protestos ocorrerem por todo o Brasil, o Palácio do Planalto diz que “o resultado obtido é expressão da opinião amplamente majoritária que se formou na sociedade brasileira em torno da necessidade de adequar as relações trabalhistas às realidades do presente e de preparar o nosso mercado de trabalho para as exigências do futuro”.

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