Foto: Nicolas de Camaret/Flickr/CC

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O céu de São Paulo não é azul. É cinza! Na verdade, a cidade também tem tons de cinza: os prédios, as ruas, as pontes, as torres. Tudo é muito cinza! Acordava, olhava o céu: nada de azul. Às vezes era a neblina baixa e fria, ou era a poluição que me impedia de enxergar o céu cintilante. Pegava metrô, andava de ônibus pelas avenidas largas, caminhava pelas ruas e era tudo monocromático. Pensei: quem está acostumado com os morros de Minas, delimitando o azul celeste, dificilmente contemplaria os dias cinza paulistanos. Me enganei!

São Paulo, apesar de não ter o azul dos céus mineiros, tem o ritmo contagiante da diversidade que a cidade representa. Lá, facilmente você se depara com gente do Brasil e do mundo circulando pelas ruas. Ao parar numa estação de ônibus, pergunto a uma moça: “A lotação vai para Barra Funda?”. Imediatamente, diz: “Vai sim”. E questiona: “você não é daqui não, né?”.

“Não! Sou mineiro.”, respondo.

“Ah, é? Que legal. Eu sou de São Luís no Maranhão e não gosto daqui não, mas a gente vem pra trabalhar.”, diz.

Quinze minutos de conversa se passaram e, ao final, saí sentindo saudades de um Maranhão, que ainda não conheço.

Em um dos dias na cidade precisei pegar o metrô. Como não conhecia a cidade, fui orientado por uma paulistana muito solícita, nascida e criada na metrópole, sobre quais rotas devia pegar para chegar ao meu destino final. Sobre metrô, ela era quase uma especialista. Afinal, sempre usava aquele tipo de transporte no dia-a-dia. Porém, não sabia pegar um ônibus da Vila Olímpia, que é ao lado da região central, para a Avenida Paulista. Ao sair do ponto inicial em que a encontrei, ela disse: “Sobre essas linhas de ônibus, estou tão perdida quanto você.”. O cinza de São Paulo engolia o mineiro do interior e sua cria, a paulistana.

Três dias na cidade foram suficientes para entender que o céu cinza – muitas vezes por causa do tempo chuvoso, outras pela poluição – não era tão importante. Afinal, ninguém olhava muito para cima. O céu não era um objeto contemplativo. E mesmo se quisessem, não teria jeito: se em Minas as curvas delimitam a imensidão azul, em SP os edifícios altos e suas torres impedem qualquer tipo de deslumbramento de um horizonte. No máximo, você enxerga algumas quadras à sua frente.

Por fim, acredito que o céu de SP está nas ruas. A beleza contemplativa que queria no azul do céu eu pude encontrar na diversidade de histórias que aquelas construções opacas e sem vida, guardam.  A maranhense, a paulistana, a moça que vendia café na rua, o jornalista engravatado que andava a passos apertados e o budista que sentou ao meu lado no ônibus são as cores celestes de SP. Eles traduzem, quase que camuflados, a imensidão do céu de Minas.  Não contem a ninguém, mas descobri que o cinza de São Paulo é apenas um disfarce para esconder sua maior riqueza: a multiplicidade.

As informações e opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade única do autor.

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