DE MARIANA – Quem passa apressado pela Rua Direita, uma das mais conhecidas na cidade de Mariana, talvez não se atente para o casarão de número 37 que conta uma história de memórias para além dos 51 anos vividos por Alphonsus de Guimaraens. Poeta das sensações sombrias e a melancolia como uma das tensões que marcam sua obra, Guimaraens deixou um legado artístico e a saudade em forma de casa no Centro Histórico da cidade, transformada em Museu em 1987.

A antiga residência do poeta, que nasceu em Ouro Preto e se firmou como escritor em Mariana, estava fechada há sete anos para restauração. No dia 9 de julho deste ano, o Museu Casa Alphonsus de Guimaraens foi reaberto ao público e funciona de segunda a sexta-feira, das 12h às 18h.

O Museu é uma iniciativa de Alphonsus Filho e Gui de Guimarães, filhos do poeta e membros da Academia Marianense de Letras. A decisão de transformar o sobrado em Museu teve início em 1971 em uma das reuniões da Academia, mas a inauguração só aconteceu em 1987, depois que o Governo de Minas Gerais comprou o imóvel, em 1979, e o restaurou pela primeira vez. Em exercício até agosto de 2009, o espaço foi fechado para uma nova reparação e reaberto em julho de 2016.

O auxiliar administrativo e fotógrafo do Museu, Ailton Fernandes, conta que no processo de restauro a casa foi mantida nos moldes da que o poeta vivia. Apenas um elevador foi anexado à construção para garantir a acessibilidade ao segundo piso.

Segundo a coordenadora do Museu, Ana Cláudia Rôla Santos, nos quatro meses de funcionamento desde a reabertura, o espaço recebeu mais de 500 visitantes, entre estudantes, turistas e a própria comunidade de Mariana e Ouro Preto. “Muita gente está visitando e redescobrindo o Museu, porque não o conheciam ou queriam ver como tinha ficado a restauração”, relata a coordenadora.

Hoje, o Museu opera com parte da exposição do acervo doado pela família de Alphonsus de Guimaraens, composto por objetos pessoais, fotografias, livros, manuscritos, jornais da época, entre outros.

A exposição permanente já foi elaborada pela coordenação do Museu, mas o projeto aguarda a captação da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, para que seja executada e exibida.

Salas e programas

O Museu é dividido em salas destinadas à biografia de Alphonsus de Guimaraens. Apesar de contar com poucos exemplares em exposição, a sala da biblioteca, por exemplo, possui o original de “Dona Mystica”, livro escrito à mão por Guimaraens e publicado em 1899.

Já a sala dedicada ao poema “Ismália”, o mais conhecido do escritor, traz releituras, partituras e paródias dos versos espirituais e simbólicos do poema. “Ismália”, que já foi musicado por diversos artistas, ganhou uma nova versão na voz de Milton Nascimento, que disponibilizou a canção na reabertura do Museu.

Além de Museu, o espaço é disponibilizado para a realização de eventos e ações educativas. Entre as ações está o programa “Cantando Alphonsus”. Idealizado pela Professora Emérita da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Hebe Maria Rôla Santos, o sarau aberto é realizado em maio, por meio da Academia Infantijuvenil de Letras, Ciências e Artes, e conta com a participação de escolas públicas e privadas de Mariana, Ouro Preto e Santa Bárbara/MG. O objetivo do sarau é levar os poemas e a trajetória da vida do poeta para o cotidiano dessas escolas.

Outro programa oferecido é o “Alô, Poesia”. O projeto idealizado pela coordenadora do Museu, Ana Cláudia, incentiva a apreciação e a produção poética nas escolas de Mariana. Atualmente, além do público escolar, o “Alô, Poesia” também é desenvolvido no Centro de Atenção Psicossocial (Caps), no centro do município.

32º Sarau “Cantando Alphonsus”. Declamação como forma de arte. Foto: Ailton Fernandes/Divulgação

32º Sarau “Cantando Alphonsus”. Declamação como forma de arte. Foto: Ailton Fernandes/Divulgação

Solitário de Mariana

Nascido em Ouro Preto em 24 de julho de 1870, Afonso Henrique da Costa Guimarães foi juiz e poeta. Chegou em Mariana no ano de 1906 para assumir o cargo de juiz municipal. Ícone do movimento literário simbolista, Afonso passou a assinar o nome como Alphonsus de Guimaraens e a escrever para jornais locais, entre eles o “Germinal”, e de outros estados, como o “Gazeta de São Paulo”.

Por sua forte relação com a cidade, levam seu nome uma rua e uma ponte, localizadas no Centro, além da Biblioteca do Instituto de Ciências Humanas e Sociais (Ichs). Além disso, é dele a autoria do hino de Mariana, escrito em 1911, quando o município completava 200 anos – o hino retrata uma cidade que afundava na crise aurífera, não tão distante da crise atual do minério.

Apelidado de “Solitário de Mariana” e “Príncipe das Alterosas”, a poesia de Alphonsus gira em torno da dualidade vida e morte, em razão do falecimento da prima e noiva Constância Guimarães, ainda na adolescência. Seus poemas convocam a dor da perda e a solidão; o místico e a metáfora da brancura como uma evocação do sagrado e do profano. Eram nas tragédias pessoais que o poeta encontrava forças para produzir, o que lhe rendeu a cadeira número 3 na Academia Mineira de Letras e o reconhecimento nacional de sua poesia como sensível, mas angustiada.

Com a esposa Zenaide de Oliveira, Alphonsus teve 15 filhos. A última filha, Constância Guimaraens (em homenagem à prima), também faleceu antes de chegar à vida adulta. Dois meses depois, abalado pela perda da filha e o sentimento nostálgico advindo também pela perda da prima, Alphonsus de Guimaraens falece em 15 de julho de 1921, em Mariana. A família se muda para Belo Horizonte em 1923 e dois filhos do poeta seguem a carreira de escritor. Atualmente, apenas seu bisneto, Maurício Guimarães, vive em Mariana.

Os poemas mais famosos

  • “Ismália”
  • “A Catedral”
  • “Hão de Chorar por Ela os Cinamomos”
  • “Quando por mim passaste…”
Museu Casa Alphonsus de Guimaraens

Rua Direita, 37, Centro, Mariana, Minas Gerais
Aberto de segunda a sexta-feira, das 12h às 18h
Informações: (31) 3557-3259 ou museualphonsus@cultura.mg.gov.br
Entrada Gratuita

 

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